terça-feira, 13 de julho de 2010

Volto ao blogue para um último post, agora que já estou de férias e o Mundial já acabou. Quanto a futebol, de que aqui pouco falei, apenas quero dizer que votei no Diego Forlán para melhor jogador e que há uma frase de Del Bosque que explica por que Portugal não foi mais longe: "Em 50 dias, os jogadores não me criaram um único problema." Agora sobre o que interessa: a experiência única de acompanhar um Mundial. Ou de acompanhar um Mundial na África do Sul. Ao terceiro dia, só pedia para me tirarem dali, achava, com o assalto, que estava realmente entregue à sorte. A verdade é que me enganei. A África do Sul é, de facto, um país complicado em termos de segurança, porque se assim não fosse não era considerado o segundo mais violento do mundo - só atrás dos que estão em guerra -, mas só em Joanesburgo senti esse clima de bomba prestes a explodir. Nas restantes cidades, e excluo Durban, porque ficámos num hotel a 50 quilómetros do centro da cidade, passámos dias calmíssimos, passeámos por onde quisemos, vimos o que tivemos de ver e, mesmo sempre alerta, nada nos aconteceu. Na Cidade do Cabo, por exemplo, há (havia) muita polícia nas ruas e também seguranças privados. Esta cidade, que ainda por cima por razões histórias diz tanto a Portugal, merece mais do que as outras esta ressalva, com maravilhas naturais para ver e criações do Homem igualmente credoras de contemplação. Tem zonas verdadeiramente paradisíacas.
Agora, as pessoas. As pessoas, sendo impossível desligá-las do ambiente, que creio decisivo para aquilo que elas são, vivem com uma força interior que impressiona. E que nos envergonha. Não houve ninguém que nos recusasse ajuda, que não fizesse o possível, e muitas vezes o impossível, para ajudar, para não deixar ficar mal o país - um país de contrastes incríveis, mais até do que no Brasil, que eu pensava ser o cúmulo dos contrastes, mas um país que se sente a crescer, que se sente ter oportunidades e potencial (onde é que nós não vemos isso?). Lembro-me sobretudo do Themba, o nosso motorista, e do Pedro do Coração, um sul-africano filho de moçambicana que nos ajudou na Cidade do Cabo, mas não posso esquecer todos aqueles que a tudo reagiam com um sorriso, que faziam perguntas sobre Portugal, que ficavam extasiados se soltávamos uma palavra em zulu, um zulu cómico de tão rudimentar, que para eles era sinal de que nos interessávamos pela cultura deles. A população negra vive ainda com muitos fantasmas do apartheida. É incontornável. Muitas vezes havia quem me dissesse que há uns anos não podia estar perto de mim, que tinha de estar noutro local, entrar por outras portas, ficar noutras filas. E, para eles, ver um branco dizer saw'bona (olá), mesmo que essa seja a única palavra em zulu que esse branco saber dizer, é uma prova de respeito. De carinho.
Foi quase um mês sempre com os mesmos colegas - nalguns casos mais, para quem já vinha da Covilhã. No avião para cá, enquanto trocávamos fotos que cada um tirara, o Valter Madureira entregou uma pen com uma pasta chamada "Valter partilha família África do Sul". Ora, não haveria termo mais apropriado para qualificar aquele grupo de uns 15 malucos que esteve juntos em todas as aventuras. A experiência de ver um jogo do Mundial é para guardar, é um ambiente especial, é um privilégio; estar num país culturalmente tão diverso é memorável; mas o que de melhor trouxe da África do Sul foram as amizades com colegas que mal conhecia e o reforço da ligação a outros com quem já tenho uma sólida identificação, como o meu colega d' O Jogo Manuel Casaca e o espanhol, galego, Manu Sainz. Apesar de nalguns casos concorrentes, todos colaborámos uns com os outros, dentro obviamente do aceitável, todos fomos solidários, partilhando uma sala que literalmente transformámos em redacção. Deixo aqui um abraço a estes companheiros de aventura, uma aventura vivida tanto na savana (prisão domiciliária) de Magaliesburgo como nas metrópoles Joanesburgo e Cidade do Cabo (só vendo se percebe a diferença de realidades...), começando por dois senhores da rádio: o grande profissional Valter Madureira (TSF) e o seu patrão Paulo Cintrão (TSF). Os também enormes Gonçalo Lopes (DN) e Vítor Santos (JN), o inesquecível Rui Gustavo (Expresso), capaz de se perder em todos os aeroportos, o incontornável António Pereira (CM), que já na parte final andava preocupado com uma couve deixada fora do frigorífico em Lisboa, o professor Medeiros Ferreira, que o acompanhava como cronista, o sempre bem-disposto Chico Laxmidas (Reuters), o Ribeiro (fotógrafo da Reuters), os dois espanhóis da Marca (Miguel Serrano e José António Sanz), os inseparáveis Simões (O Jogo) e Morenatti (As), e o senhor Baptista, dono de um restaurante no Bairro Alto, onde espero que esta malta, ou parte dela, se reúna em breve para recordar as peripécias - e foram tantas que talvez este nem seja o último post. Logo se vê.












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